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Viver em outros países – até por questão de sobrevivência – aguça os nossos sentidos em dedicar-lhes a análise e compreensão da dinâmica social que os caracteriza. Assim, podemos extrair criticamente aquilo que melhor nos propicie a empatia, adaptação e inserção cultural. Os locais onde estive, sobretudo na Europa, pude esquadrinhá-los em suas peculiaridades histórico-geográficas, vieses políticos e participar do caldeirão multiétnico, sempre em circulação. Penso que seja isso a vivência cidadã.

A considerar que o site não foi pensado como vitrine para prestação de serviços referentes à cidadania italiana, mas com o fim de compartilhar experiências, dedico este espaço para narrar andanças, causos pitorescos, perrengues, coisa séria, aventuras de bicicleta e tudo mais que cabe no balaio desse mundão de Deus…

Divirtam-se!

11. No Parque Sempione, meu flashback com o Dire Straits

No hotel, meu frio na barriga me impedia de comer o suficiente. Por mais que eu soubesse que meu corpo não estava bem nutrido, minha ansiedade me tirava o apetite. Fui até a varanda. O sol milanês ainda estava alto, porém o brilho incandescente já cedia lugar ao tom dourado e reconfortante de um final de tarde. A frisa estava fresca e aliciante. Cedi aos seus encantos e sentei-me.   Depois de nem sei quanto tempo, retornei ao quarto para me preparar para retornar ao Parque Sempione. No banho, deixei a…

10. No centro histórico de Milão também paga-se caro num coliform´s qualquer

Havia um pessoal cuidando dos preparativos do festival. Não seria somente o Mark Knopfler a tocar. Todos me olhavam com cara de dúvida, pois era óbvio que eu não deveria estar ali. Como ninguém tinha noção do que aquilo significava para mim, ignorei-os solenemente e fui andando por entre as cadeiras para me certificar do meu lugar.   Ali estava: cadeira 8, fila 19. Levantei meu olhar rumo ao palco. Lugar central e próximo a ele. Ao esquadrinhar a parafernália espalhada pelo palco, chamou-me a atenção o que me fez caminhar…

9. Em Milão, o J.R.R.Tolkien me salva da investida senegalesa

Essa passagem com o senegalês me fez lembrar da “Filosofia da Tosqueira”, ligeira bobagem da nossa galera de faculdade em zoar comentários enviesados.   A situação, um tanto cômica, me remeteu a um lado sério que me deixou resoluta em não lhe dar dinheiro ou sair por baixo dessa mini guerra fria. Apesar da marginalização dos senegaleses (e tantos outros) advinda da problemática da imigração, a atitude de amarrar pulseiras no punho das pessoas num momento de distração e sem qualquer consentimento delas como meio de ganhar dinheiro não é…

8. O chique e o brega-chique de Milão

Acordei às 7h com uma indescritível sensação de bem-estar. Vesti uma roupa leve e fui tomar a prima colazione. Milão fazia soprar uma brisa fresca e convidativa na varanda. Sentei-me à mesa e servi os incomparáveis laticínios e cappuccino italiano.   Munida do mapa e câmera fotográfica, fui conhecer o centro histórico da cidade e descobrir onde seria o local do show. Como o Mark Knopfler era prioridade, guiei-me pela máxima de que “a menor distância entre dois pontos é uma reta” e procurei algo semelhante a isso no mapa. No…

7. Em Milão, os micos de quem chega a outro país

Agora sim, munida do mapa e sentada catinguda de suor em cima da bagagem, saquei a câmera para contemplar e flagrar o Duomo de Milão. Seus 45 metros de arquitetura gótica realmente é uma dádiva!      Como o hotel era perto e eu não estava com paciência para subir aquele trambolho num transporte coletivo cheio de gente, resolvi arrastá-lo mais um pouco. No meio do caminho, vi que um motorista de bondinho largou uma mulher para trás e que ela praguejou qualquer coisa que eu não entendi. Eu a…

6. Primeiro “ciao”!

Finalmente, depois de tanto perrengue, a Itália. O calor seco que castigava o entorno do aeroporto de Malpensa, em Milão, não me impediu de dedicar breves instantes à imensidão de planície que me dava as boas-vindas. Foi quando o simpático motorista do Shuttle, provavelmente tendo observado meu sorrisinho de satisfação, se aproximou e disse solícito: “Andiamo a conoscere la bella Milano, cara signorina?” O sorrisinho se escancarou ante o meu primeiro contato com a língua italiana!   Dentro do ônibus, eu observava a capital da moda. A arquitetura dos prédios…

5. No aeroporto Charles de Gaulle, os indícios de xenofobia

Na conexão feita no aeroporto Charles de Gaulle, a interessante arquitetura foi duramente ofuscada pela famosa arrogância dos parisienses. Talvez por ironia do destino, eu peguei justamente os ditos “filhos de imigrantes” pelos corredores: um oriental na imigração e um africano na alfândega.   É impressionante como eles não fazem questão alguma de falar qualquer outro idioma que não seja o francês. Percebe-se claramente que eles entendem e sabem falar inglês, porém insistem neste bairrismo idiota. É óbvio que eles não são obrigados a falar outra língua dentro do próprio…

4. She´s Leaving Home

As pendências da reviravolta da minha cidadania italiana foram resolvidas num espaço de tempo tão curto que nem me dei conta do que a minha partida significaria para as pessoas. Não que eu me importe com terceiros, mas sempre existe aquele minúsculo círculo de familiares e amigos que nos são caros e que se importam conosco.   Dos meus amigos, acho que não avisei nenhum deles porque eles saberiam que a minha ausência repentina não seria um gesto de pouco caso. Da minha família, ninguém demonstrou espanto. Pelo menos eu…

3. Cidadania Italiana… Em Portugal?!

E veio pedrada: o agendamento da legalização dos meus documentos da cidadania italiana foi cancelado pelo Consulado por questões internas. Às vésperas da minha viagem, a pessoa que iria conceder seu endereço para ser a minha residência na Itália diz que não poderia mais me hospedar lá: motivos justificáveis segundo uns e duvidosos segundo outros. A consequência direta e de fato é que eu simplesmente tinha ficado sem chão. E sem teto.   Isso aconteceu no final de junho, faltando vinte dias para o show do Mark Knopfler em Milão. Para…

2. Quando a guitarra [e a cidadania italiana] viram bigorna

Já um pouco desconectada do planejamento da cidadania italiana e da turnê do Mark Knopfler na Itália, na semana seguinte comecei a trabalhar na prefeitura. Disseram-me que eu teria que abrir uma conta no Banco do Brasil. Lá, a atendente foi logo me oferecendo o cartão de crédito. Respondi que não e aleguei que eu não tinha e não teria fundos.   Ela insistiu e disse que nos primeiros seis meses não teria que pagar prestação de anuidade. Argumentei que o meu contrato era de apenas dois meses e com…